GRAVIDEZ

Gravidez precoce 

     Em outras épocas as mulheres iniciavam a atividade sexual somente após o casamento, que acontecia no momento em que o homem e a mulher se encontravam capazes de assumir sua independência dos pais, tanto no aspecto econômico como no social e no emocional, sendo certo que a condição psicossocial de independência frente aos pais confere ao indivíduo as características do adulto, apto a arcar com as conseqüências da procriação. O início da vida sexual da mulher após o casamento era uma condição da repressão à sexualidade feminina, portanto, eram raros os casos de mulheres que engravidavam na adolescência e solteiras. A Revolução Sexual da década de 60 questionou vários aspectos do papel da mulher e entre estes estava o exercício da sexualidade. Os questionamentos levaram as mulheres à luta por direitos - antes negados a elas - e dentre as suas conquistas está a liberdade de iniciar a atividade sexual sem o vínculo obrigatório do casamento. 

       A gravidez na adolescência tornou-se uma preocupação a partir das décadas de 60 e 70, quando, como resultado dos movimentos sociais voltados para a liberdade do comportamento sexual, elevou-se o número de mulheres com início de atividade sexual antes do casamento. A partir da década de 60, a incidência da gravidez na adolescência vem aumentando significativamente e as estatísticas mostram que o índice verificado em 1950, de 81,6 gestações para 1.000 adolescentes, passou a ser de 112 gestações para 1.000 adolescentes em 1970. Estima-se que nos dias atuais, no mundo todo, 13.000.000 de mulheres grávidas têm entre 12 e 20 anos. No Brasil, a incidência de parto em mulheres menores de 19 anos está em ascensão, conforme mostram dados publicados pela Área de Saúde do Adolescente e do Jovem (ASAJ) e pela Secretaria de Políticas de Saúde do Ministério da Saúde (1999). Tais dados são fornecidos pelo Sistema de Informações Hospitalares (SIH/SUS) DATASUS/MS e se referem aos anos de 1993 a 1999. Segundo as fontes estatísticas acima citadas, o número de partos ocorridos em mulheres de 10 a 19 anos, em 1993, correspondeu a 22,3% (638.113) do total de partos (2.856.255). De acordo com as mesmas fontes, esta incidência atingiu, em 1999, a ordem de 26,95% (705.312) do total de partos (2.616.720). Esses dados comprovam que, apesar dos esforços para diminuir os casos de gestação na adolescência, sua ocorrência continua aumentando, tendo sido de 4,62% a elevação da porcentagem de partos na adolescência em relação ao total de partos no período compreendido entre os anos 1993 e 1999. 

       É comum se referir à gravidez na adolescência como uma gravidez indesejada, entretanto, nos dias de hoje, a maioria das adolescentes engravidam por vontade própria e não por acidente. A gravidez na adolescência é sempre inoportuna, mas raramente indesejada. Os métodos anticoncepcionais que eram desconhecidos por elas até meados dos anos 80, hoje são do conhecimento de todas. Com o advento da AIDS, o uso do preservativo deixou de ser uma opção para ser uma necessidade. As revistas dirigidas aos adolescentes fazem ampla divulgação dos métodos de anticoncepção; as escolas se preocupam em informar sobre anticoncepção e a família está mais atenta para o risco da gravidez na adolescência. Entretanto, a incidência da gestação na adolescência não apresentou o declínio esperado, mostrando que a diminuição dos índices não dependia apenas da informação sobre os métodos anticoncepcionais. Apesar de todas as facilidades que existem para a anticoncepção e de todos os inconvenientes e limitações que a gravidez e o filho podem determinar para a sua vida, a adolescente encontra motivos para desejar a gravidez. Abordamos a seguir as causas mais comuns da ocorrência da gravidez na adolescência: 



Busca da Maturidade

       
       As modificações físicas e emocionais, o novo esquema corporal e os novos recursos emocionais impulsionam para a busca de uma nova identidade. A conquista desta identidade inclui a independência da proteção dos pais e uma atitude pessoal diante da sociedade. Entretanto, a adolescente sente-se muito frágil para dispensar a proteção da família e não confia nos seus recursos para se posicionar socialmente. Essas inseguranças determinam sentimentos de inferioridade, que levam a adolescente a lançar mão de arrogadas atitudes na ânsia de convencer a todos e a si própria que atingiu a maturidade e deixou de ser criança. Uma destas atitudes é a gravidez.



Instabilidade
 


        A instabilidade de humor, característica desta faixa etária, é um fator que pode explicar o desejo de engravidar. Na adolescência, a euforia e o estado de depressão se alternam em curto espaço de tempo e sem motivo aparente, deixando na adolescente profunda sensação de insegurança. Uma tomada de decisão segura e irredutível pode durar menos de vinte e quatro horas. A adolescente que ontem desejava uma carreira profissional, hoje almeja a comodidade de um casamento e em poucos dias volta a desejar a carreira profissional. Ao perceber a inconstância das suas convicções, a adolescente sente-se ameaçada e os adultos confirmam essa ameaça, tratando a questão como se fosse uma falha de personalidade. Os adultos agem desta forma porque a inflexibilidade dos posicionamentos é uma característica da idade adulta, e há uma tendência do adulto esquecer as experiências da sua adolescência. Portanto, querendo corrigir a impressão de instável, a adolescente decide engravidar, pois assim define sua opção sem a possibilidade de voltar atrás.



 Casamento

 

        Nossa sociedade atribui ao casamento a condição necessária para a realização da mulher. A família, cumprindo seu papel social, exerce pressão para que suas filhas se casem. Neste ambiente de cobrança, a maioria das mulheres se submete, e procura assegurar o casamento, na primeira oportunidade que surge. Como na adolescência não há condição econômica favorável para que o casamento ocorra, a gravidez é o recurso utilizado para que ocorra mesmo sem haver as condições econômicas. A gravidez é uma situação que deixa até mesmo a conclusão da escolaridade básica para segundo plano.

     

Desejo de felicidade

 

        A instituição casamento ocupa lugar de importância entre os desejos mais íntimos das pessoas, pois nos discursos sociais ela é o veículo indispensável para a felicidade, e a felicidade todos buscam com obstinação. As adultas, quando não conseguem omitir os sofrimentos vividos em seus casamentos, se comportam como se o seu caso fosse uma exceção, e reforçam a ilusão de que o casamento é fonte de felicidade. O conceito de que o casamento é sempre feliz, bastando cada um dos parceiros colaborarem para a boa convivência, é aceito pela maioria das pessoas e cria na adolescente, que se sente infeliz, a expectativa de encontrar no casamento o refúgio seguro. A gravidez é usada para viabilizar o casamento antes que os pré-requisitos sejam alcançados, pois neste caso deixar de ser infeliz é prioridade.



 Ser útil

      

         Atualmente as crianças e adolescentes são tratados pela sociedade e pela família como incapazes para qualquer responsabilidade ou execução de trabalho. O estudo e a prática de esporte são as únicas atividades permitidas às crianças e adolescentes, e sem cobranças. Esta situação determina, em algumas adolescentes, a sensação de improdutividade e inutilidade. Essas adolescentes com necessidade de sentirem-se úteis vêem no filho a oportunidade de uma responsabilidade. Quando questionadas sobre o que de melhor lhe trouxe o nascimento do filho, uma amostra significativa responde que foi a possibilidade de ser útil e necessária.

                        




Conflitos familiares



         Nas famílias em que a convivência é conflituosa por dificuldade de relacionamento ou econômica, o casamento é a oportunidade da adolescente deixar este ambiente. As adolescentes acreditam que vão constituir uma família sem conflitos emocionais ou dificuldades econômicas. Para não ser impedida de constituir família antes de ser adulta, a adolescente engravida e o casamento passa a ser o desejo dos pais. Contudo, para a maioria das adolescentes, esses problemas não desaparecem com o casamento, pois as dificuldades econômicas se mantêm ou pioram e os conflitos emocionais existirão como resultado da condição econômica ou da dificuldade de relacionamento do casal ainda imaturo.

 

Mercado de trabalho 

 


         A inserção no mercado de trabalho é outro fator que impulsiona a adolescente para a gravidez. A mulher é educada para o exercício de atividades cooperativas e o mercado de trabalho é competitivo. Assim sendo, ela sente-se ameaçada pela perspectiva cada vez mais próxima de inserção no mercado de trabalho. O casamento e o filho seriam a única situação em que a sociedade e a família deixariam de cobrar a imediata profissionalização, aceitando que os estudos ou o emprego sejam abandonados por uma causa maior, o filho.




Romantismo


 
         
Na adolescência, a racionalidade ainda não contaminou as emoções e, conseqüentemente, os sentimentos acontecem com toda intensidade. A colocação de limites no prazer, através de ponderações racionais, é própria da maturidade. Portanto, na adolescência o amor é muito intenso, sem limites ou exigências. Assim sendo, selar o amor dedicado ao homem, tornando-se mãe do seu filho, é romântico o suficiente para a adolescente se sentir feliz. Outras vezes é para satisfazer o desejo do homem de ser pai que elas engravidam, pois o fato dele desejar um filho dela é uma grande demonstração de amor. Como as emoções fluem sem a censura da razão, a gravidez é vista como a mais óbvia das decisões.





Pensamento Mágico 

 

          O pensamento mágico, apanágio da infância, ocorre com freqüência na adolescência e raramente na fase adulta. Por conta deste mecanismo fantasioso de resolver suas dificuldades, algumas adolescentes exercem a atividade sexual sem proteção para a gravidez, pois acreditam que para elas o indesejado não acontece. Quando a gravidez ocorre por essa razão, ela é indesejada.





Tabus e preconceitos 

 

           Apesar da ampla divulgação das corretas informações sobre os métodos anticoncepcionais, os tabus e os preconceitos ainda influem na decisão de algumas mulheres. Esses tabus e preconceitos estabelecem uma ligação direta entre a anticoncepção e algum prejuízo à fertilidade futura ou à estética da mulher. A melhor das informações técnicas sobre os métodos anticoncepcionais é esquecida pela adolescente diante das ameaças dos tabus e preconceitos.

             Conseqüencias da gravidez precoce 

     A gravidez na população adolescente apresenta índices mais elevados para algumas intercorrências clínicas (anemia e infecção urinária); doença hipertensiva específica da gravidez; prematuridade e recém-nascido de baixo peso, quando comparado ao grupo de mulheres entre 20 e 30 anos. 

     A taxa de mortalidade neonatal é mais alta para os filhos das adolescentes que para os filhos das mulheres de 20 a 30 anos, em conseqüência da maior incidência de prematuridade e baixo peso ao nascer. A incidência dessas complicações médicas é diminuída com adequada assistência pré-natal, especializada para adolescentes. A assistência pré-natal deve ser realizada por equipe multiprofissional (médico obstetra, psicóloga e assistente social), especializada em adolescência, pois os fatores que interferem no desenvolvimento da gravidez na adolescência não se restringem aos aspectos físicos, abrangendo também os aspectos emocionais e sociais. 

      As conseqüências indesejáveis emocionais e sociais da gravidez precoce têm repercussões a curto, médio e longo prazo, para a sociedade, a família e a adolescente. Dentre os comprometimentos psicossociais, vale descrever os mais comuns.

    O baixo poder aquisitivo e as dificuldades emocionais da mãe são responsáveis pelo maior índice de mortalidade infantil (até um ano de idade) entre os filhos das mulheres adolescentes.

      A instabilidade emocional e econômica do casal adolescente acarreta alta incidência de separações, comprometendo o desenvolvimento emocional da criança e o poder aquisitivo da família.

      O abandono dos estudos é alto entre os adolescentes que tiveram filho, a mulher porque precisa cuidar da criança e o homem porque precisa trabalhar para sustentar a família.

     A baixa escolaridade e a necessidade precoce de ingresso no mercado de trabalho aumenta o número de mão de obra não especializada. Em conseqüência, aumenta na sociedade o número de famílias que sobrevivem com salários muito baixos, em situação de pobreza. 

     Enfrentar os conflitos emocionais e o peso da responsabilidade da gravidez e da maternidade em uma idade tão precoce deixa marcas psicológicas definitivas na mulher. Ser responsável pela sobrevivência do filho, quando ainda não se está preparada e amadurecida para ser responsável pela própria sobrevivência, é um desafio quase invencível. 

    Apesar de todas as conseqüências indesejáveis da gravidez nesta faixa etária, as adolescentes declaram que desejam engravidar. As informações de como evitar a gravidez, o acesso à maioria dos métodos e a aceitação social do uso desses métodos pela adolescente existem, e a gravidez na adolescência continua ocorrendo, e em idade cada vez mais precoce. 

    A convivência com as adolescentes na assistência pré-natal mostra que a gravidez e o casamento são, para essas mulheres, a única realização possível nas suas vidas. Portanto, a sociedade e a família precisam oferecer a essas adolescentes uma perspectiva de futuro, que as motive a adiar a gravidez para um momento mais adequado. Ela precisa acreditar que existe a oportunidade de crescimento e de melhores condições de vida para seu filho. Criar a esperança de um futuro melhor é dar oportunidade de experimentar responsabilidades e de desenvolver o prazer pelas conquistas através da luta e do esforço próprio.

Isméri Seixas Cheque Conceição
Gnec. e coord. do PAMPA - Prog. de A. Médica e Psicossocial à Adolescência da F. de Med. do ABC


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